Rotura do Tendão de Aquiles 

porque está a aumentar e o que isto revela sobre o atleta moderno?


Resumo

Este estudo mostra que a rotura do tendão de Aquiles não deve ser vista apenas como uma lesão isolada, súbita ou reservada ao atleta profissional. A sua incidência tem aumentado de forma consistente ao longo das últimas décadas, sobretudo em homens fisicamente ativos de meia-idade, e cerca de dois terços dos casos estão associados à prática desportiva. Mais do que um simples problema de “fragilidade tendinosa”, este artigo obriga-nos a olhar para a rotura do Aquiles como o resultado de uma relação complexa entre idade, exposição à carga, exigência mecânica, prática recreativa intensa e preparação física insuficiente. Ao mesmo tempo, mostra uma mudança clara na abordagem clínica: a cirurgia deixou de ser a resposta automática em todos os casos, com uma tendência crescente para estratégias conservadoras bem estruturadas.


Uma leitura crítica de um estudo que nos obriga a olhar melhor para o tendão de Aquiles

A rotura do tendão de Aquiles é uma daquelas lesões que, quando acontece, parece surgir do nada. Um arranque rápido, uma mudança de direção, um salto, uma travagem, e de repente o atleta sente como se tivesse levado uma pancada na parte de trás da perna.

Mas a grande questão é esta: será que a rotura acontece mesmo “de repente”?

O estudo Incidence, “Temporal Trends, and Surgical Shift of Achilles Tendon Rupture: A Systematic Review and Meta-analysis”, de Kotsifaki, Malliaras, Byron e colaboradores, ajuda-nos a perceber que a resposta provavelmente é mais complexa. A lesão pode acontecer num momento específico, mas o contexto que a prepara vai sendo construído ao longo do tempo.

Este trabalho analisou dados de mais de 70 anos, entre 1950 e 2022, incluindo 28 estudos populacionais, mais de 630 milhões de indivíduos e cerca de 568 mil casos de rotura do tendão de Aquiles. É, por isso, uma das análises mais abrangentes já feitas sobre esta lesão.

E existe a mensagem clara de que as roturas do tendão de Aquiles estão a aumentar.

Para quem trabalha com treino, fisioterapia, reabilitação ou performance, este dado não é apenas epidemiológico. É uma chamada de atenção prática. Se a incidência está a subir, temos de perceber quem está em maior risco, em que contextos estas roturas acontecem e que tipo de preparação pode reduzir essa probabilidade.

Porque o tendão de Aquiles não é apenas uma estrutura passiva que “aguenta” carga. É uma peça central da locomoção humana. Armazena e devolve energia, contribui para a eficiência da marcha, da corrida e do salto, e suporta forças extremamente elevadas em tarefas explosivas. O paradoxo é precisamente esse, é o tendão mais forte e espesso do corpo humano, mas também o mais frequentemente a sofrer uma rotura.

O que o estudo quis responder

A pergunta central do estudo foi simples, mas extremamente relevante: como tem evoluído a incidência da rotura do tendão de Aquiles ao longo do tempo?

Mas os autores foram mais longe. Procuraram responder a várias questões fundamentais:

  • Se a incidência global da rotura do tendão de Aquiles tem aumentado nas últimas décadas;

  • quais os grupos mais afetados em função da idade, sexo e região geográfica;

  • qual a proporção de roturas associadas à prática desportiva;

  • e como mudou a tendência de tratamento cirúrgico ao longo do tempo.

Isto é particularmente importante porque grande parte da literatura sobre o tendão de Aquiles tem estado muito centrada no tratamento, na comparação entre cirurgia e abordagem conservadora, ou nos protocolos de reabilitação. Este estudo coloca a pergunta antes disso: qual é a verdadeira dimensão do problema?

Essa mudança de foco é essencial. Antes de discutirmos como tratar melhor, precisamos de perceber quem se está a lesionar, quando, em que contexto e com que frequência.

Porque é que este estudo merece atenção

Há vários motivos para levar este estudo muito a sério.

Primeiro, não estamos perante uma opinião clínica ou uma revisão narrativa. Estamos perante uma revisão sistemática com meta-análise, realizada de acordo com as recomendações PRISMA, incluindo apenas estudos populacionais ou com amostras representativas. Isto é importante porque reduz o risco de conclusões baseadas em populações muito específicas ou em centros clínicos isolados.

Segundo, a escala dos dados é muito forte. Os autores analisaram 28 estudos, cobrindo dados entre 1950 e 2022, com mais de 630 milhões de indivíduos representados. Poucos temas na área da lesão músculo-esquelética conseguem reunir uma base epidemiológica desta dimensão.

Terceiro, o estudo não se limitou a calcular uma incidência global. Os autores analisaram tendências temporais, diferenças por sexo, grupos etários, regiões geográficas, associação ao desporto e evolução do tratamento cirúrgico. Isto permite uma leitura muito mais rica do fenómeno.

Em quarto, os resultados não são apenas estatisticamente interessantes. São altamente aplicáveis. Falam diretamente com aquilo que vemos na prática, homens adultos que continuam a praticar futebol, padel, ténis, basquetebol ou outros desportos explosivos, muitas vezes com uma exposição intensa ao fim de semana e uma preparação física insuficiente durante a semana.

O desenho do estudo, sem complicar o essencial

Os autores pesquisaram seis bases de dados até abril de 2025 e incluíram estudos populacionais que reportaram a incidência de rotura do tendão de Aquiles. A incidência foi calculada por 100.000 pessoas/ano, o que permite comparar populações diferentes ao longo do tempo.

Foram incluídos estudos baseados em registos nacionais, sistemas de saúde representativos ou amostras populacionais. Depois, os dados foram analisados através de modelos estatísticos de efeitos aleatórios e meta-regressões, permitindo estimar tendências ao longo das décadas e diferenças entre subgrupos.

Na prática, o estudo tentou responder a uma pergunta muito concreta: se olharmos para grandes populações ao longo de muitos anos, a rutura do tendão de Aquiles está a tornar-se mais comum?

A resposta foi sim.

O principal resultado: as roturas do Aquiles estão a aumentar

O resultado mais forte do estudo é a subida sustentada da incidência da rotura do tendão de Aquiles ao longo das últimas seis décadas.

A incidência global agrupada foi de 15,7 casos por 100.000 pessoas/ano. No entanto, quando os autores analisaram a evolução temporal, observaram uma subida clara: valores mais baixos no final da década de 1970 e uma estimativa de 31,1 casos por 100.000 pessoas/ano na década de 2020. A meta-regressão indicou um aumento médio anual de cerca de 2,7%.

Isto significa que a rotura do tendão de Aquiles não é apenas uma lesão que estamos a diagnosticar melhor. É provável que exista também uma verdadeira alteração no perfil de exposição da população.

Mais pessoas continuam fisicamente ativas durante mais tempo. Mais adultos de meia-idade participam em desportos recreativos. Mais indivíduos fazem atividades com aceleração, desaceleração, saltos e mudanças rápidas de direção sem uma preparação progressiva suficiente.

E aqui está uma das ideias centrais deste artigo: o aumento das roturas do Aquiles provavelmente não é explicado por um único fator. É a soma de vários elementos: envelhecimento ativo, maior participação desportiva, maior exposição a modalidades explosivas, possíveis alterações no estilo de vida e, em muitos casos, um desfasamento entre a intenção de competir e a capacidade real do tecido para tolerar carga.

O tendão pode ser forte. Mas força estrutural não significa invulnerabilidade.

O perfil de maior risco: homem, meia-idade e desporto recreativo

Um dos achados mais consistentes foi a diferença entre homens e mulheres. Os homens apresentaram uma incidência mais de três vezes superior à das mulheres, com uma razão homem/mulher de 3,18.

O pico de incidência nos homens ocorreu entre os 30 e os 49 anos, enquanto nas mulheres surgiu mais tarde, sobretudo entre os 40 e os 49 anos.

Este dado é muito interessante porque nos afasta da ideia de que a rotura do Aquiles é sobretudo uma lesão do jovem atleta de elite. Claro que pode acontecer nesse contexto, e quando acontece no alto rendimento tem um impacto enorme. Mas epidemiologicamente, o grupo mais evidente é outro: o adulto fisicamente ativo, muitas vezes recreativo, que continua a praticar modalidades explosivas numa fase da vida em que o tecido já não responde da mesma forma que aos 20 anos.

Esta é talvez a imagem mais importante para levar para a prática: o atleta recreativo de meia-idade.

É a pessoa que trabalha durante a semana, passa muitas horas sentada, treina pouco de forma estruturada, mas ao fim de semana entra num jogo de futebol, padel, ténis ou basquetebol com intensidade competitiva. O sistema cardiovascular até pode tolerar o esforço. A motivação está lá. A cabeça ainda quer responder rápido. Mas o tendão, o músculo e a unidade músculo-tendinosa podem não estar preparados para a velocidade e magnitude da carga.

E o tendão de Aquiles, pela sua função, sofre particularmente com esse desfasamento.

O desporto como grande contexto de lesão

O estudo estimou que cerca de 68% das roturas do tendão de Aquiles são associadas à prática desportiva.

Este dado é fundamental. Mostra que não estamos apenas perante um problema degenerativo ou ligado ao envelhecimento passivo. Estamos perante uma lesão fortemente associada à exposição a tarefas desportivas.

As modalidades mais relevantes tendem a ser aquelas que combinam aceleração, desaceleração, saltos, receções, mudanças de direção e ações reativas. O artigo da Applied Performance, que resume este mesmo estudo, destaca precisamente a importância de desportos como basquetebol, futebol e modalidades de raquete, e enquadra o problema como um desfasamento entre carga e exposição, não apenas como uma questão de degeneração tecidular.

Isto é especialmente atual. O crescimento de modalidades como o padel e o pickleball criou uma nova população exposta a gestos explosivos, muitas vezes sem histórico recente de preparação física adequada. O estudo original também discute esta hipótese, referindo o crescimento recente dos desportos de raquete como uma explicação plausível para o novo aumento observado na década de 2020, embora os autores alertem que esta interpretação ainda deve ser feita com cautela.

É importante perceber que o problema não está no desporto em si. O problema está na relação entre aquilo que o desporto exige e aquilo que o corpo foi preparado para tolerar.

Um jogo de padel não parece agressivo quando comparado com um treino de sprint ou uma sessão de pliometria. Mas do ponto de vista do Aquiles, pode ser altamente exigente: pequenos arranques, travagens, impulsões, ajustes rápidos, mudanças de apoio e ações repetidas em fadiga.

O tendão não avalia a modalidade pelo seu estatuto recreativo. Avalia pela carga mecânica que recebe.

O tendão de Aquiles: forte, elástico, mas vulnerável

O tendão de Aquiles é uma estrutura extraordinária. A sua função não é apenas transmitir força do tríceps sural para o pé. Ele participa ativamente na eficiência do movimento humano através do armazenamento e reutilização de energia elástica.

Durante a corrida, o salto ou uma mudança de direção, o tendão é alongado rapidamente e depois contribui para a propulsão. Esta capacidade é essencial para a performance. Mas também significa que o tendão é exposto a forças muito elevadas, especialmente quando a tarefa combina velocidade, rigidez, travagem e propulsão.

Com o envelhecimento, podem ocorrer alterações na composição e nas propriedades mecânicas do tendão. A rigidez, a capacidade de adaptação à carga, a vascularização, a organização do colagénio e a tolerância à fadiga podem mudar. O estudo discute que a subida da idade média dos pacientes pode estar relacionada com o aumento da atividade física em adultos mais velhos, mas também com alterações tendinosas relacionadas com a idade.

Isto não significa que envelhecer seja o problema. Pelo contrário, manter-se ativo é desejável. O problema surge quando há uma distância demasiado grande entre o nível de atividade desejado e a preparação real da estrutura.

O tendão adapta-se. Mas adapta-se a partir de estímulos progressivos, repetidos e bem distribuídos. Não se adapta bem a longos períodos de baixa exposição seguidos de picos bruscos de intensidade.

É aqui que muitos atletas recreativos se tornam vulneráveis. Não porque sejam frágeis, mas porque estão despreparados para tarefas que exigem rigidez, força, capacidade elástica e tolerância a ações explosivas repetidas.

Porque é que a idade muda o perfil de risco

Um ponto muito interessante do estudo é a diferença entre roturas associadas ao desporto e roturas não associadas ao desporto.

Nas roturas desportivas, o pico apareceu mais cedo, sobretudo entre os 30 e os 49 anos. Nas roturas não desportivas, o pico tendeu a surgir mais tarde, entre os 50 e os 69 anos.

Isto sugere dois perfis diferentes.

O primeiro é o perfil explosivo-recreativo: adulto de meia-idade, fisicamente ativo, envolvido em desportos com aceleração, desaceleração, saltos e mudanças de direção.

O segundo é o perfil mais degenerativo ou funcional: indivíduo mais velho, eventualmente com menor capacidade tendinosa, menor força muscular, alterações metabólicas ou menor tolerância a tarefas aparentemente simples.

Do ponto de vista prático, isto muda a intervenção. No primeiro caso, a prevenção deve estar muito ligada à preparação física específica para o desporto. No segundo, pode estar mais ligada à manutenção da força, capacidade funcional, controlo metabólico, mobilidade, equilíbrio e autonomia.

A mesma lesão pode ter contextos diferentes. E contextos diferentes pedem estratégias diferentes.

A mudança no tratamento: a cirurgia já não é automática

Outro resultado muito relevante foi a mudança na tendência de tratamento cirúrgico.

Durante muitos anos, a rotura do tendão de Aquiles foi vista quase automaticamente como uma lesão cirúrgica, sobretudo em indivíduos ativos. No entanto, este estudo mostra que as taxas de reparação cirúrgica atingiram um pico por volta de 2003 e diminuíram desde então.

Isto reflete uma mudança importante na prática clínica. A evidência tem mostrado que, em vários contextos, o tratamento conservador com reabilitação funcional precoce pode produzir resultados semelhantes à cirurgia em termos funcionais, embora a decisão continue a depender do perfil do paciente, das exigências desportivas, do risco de recidiva, da qualidade do protocolo de reabilitação e do contexto clínico.

Esta mudança não significa que a cirurgia deixou de ser importante. Em atletas de elite ou em indivíduos com elevadas exigências funcionais, a cirurgia continua a ser frequentemente considerada. Mas significa que a decisão deve ser individualizada.

E talvez esta seja a mensagem mais madura: não há uma resposta universal.

A rotura do Aquiles não deve ser tratada apenas com base na imagem, na tradição ou na idade cronológica. Deve ser interpretada com base no indivíduo: nível de atividade, objetivos, saúde geral, contexto desportivo, capacidade de cumprir reabilitação, risco cirúrgico e expectativas de retorno.

A cirurgia pode reparar o tendão. Mas é a reabilitação que reconstrói a função.

O que este artigo desmonta de forma brilhante

Talvez a maior virtude deste estudo seja desmontar uma ideia demasiado simplista: a de que a rotura do Aquiles acontece apenas porque o tendão estava fraco ou degenerado.

Essa explicação fica curta.

O que este estudo sugere é mais interessante: a rotura do Aquiles é muitas vezes o resultado de uma incompatibilidade entre carga e capacidade.

A carga vem do desporto, da velocidade, das mudanças de direção, dos saltos, da fadiga, da competição e da imprevisibilidade.

A capacidade vem da força, da rigidez tendinosa adequada, da tolerância ao ciclo alongamento-encurtamento, da exposição progressiva, da recuperação, da história de treino e da saúde do tecido.

Quando a carga ultrapassa a capacidade de forma abrupta, o risco aumenta.

Isto é particularmente importante porque muitos adultos não deixam de ser competitivos só porque envelhecem. Continuam a querer chegar à bola, saltar, arrancar, travar e reagir como sempre fizeram. Mas se o treino não acompanha essa intenção, o sistema músculo-tendinoso pode ficar exposto a uma exigência para a qual já não está preparado.

O tendão de Aquiles não rompe apenas no momento em que falha. Muitas vezes, rompe depois de semanas, meses ou anos em que a exposição foi maior do que a preparação.

Limitações que não deves ignorar

O estudo é forte, mas não é perfeito.

A primeira limitação é a grande heterogeneidade entre estudos. Os autores encontraram diferenças importantes na forma como cada país, região ou sistema de saúde regista os casos. Isto pode influenciar a estimativa real da incidência.

A segunda limitação é geográfica. A maioria dos estudos incluídos veio de países de alto rendimento, especialmente Europa, América do Norte, Oceânia e alguns países asiáticos. Há pouca ou nenhuma representação de várias regiões do mundo, nomeadamente África e América Latina. Isto limita a generalização global.

A terceira limitação é a falta de detalhe sobre o nível de prática desportiva. Em muitos estudos, a classificação era apenas “desporto” ou “não desporto”. Isto é pouco. Não nos diz se a pessoa era atleta profissional, atleta amador, praticante recreativo regular ou alguém que jogava ocasionalmente. O próprio resumo da Applied Performance também destaca esta limitação, referindo a falta de detalhe sobre o background de treino e o nível competitivo dos participantes.

A quarta limitação é que muitos fatores individuais não foram suficientemente analisados: histórico de tendinopatia, uso de corticosteróides ou quinolonas, obesidade, diabetes, doenças metabólicas, genética, força muscular, qualidade do sono, recuperação e volume real de exposição ao treino.

Ou seja, o estudo mostra muito bem o “quanto” e o “quem”. Mas ainda precisamos de melhor investigação para perceber com maior precisão o “porquê” em cada indivíduo.

O que isto muda na prática

Aqui é que o estudo se torna verdadeiramente útil.

Se a rotura do tendão de Aquiles está a aumentar, sobretudo em adultos ativos de meia-idade e em contexto desportivo, então a prevenção não pode ser limitada a alongamentos ocasionais ou conselhos genéricos para “aquecer melhor”.

Precisamos preparar o tendão para aquilo que ele vai encontrar.

E aquilo que ele vai encontrar no desporto não é apenas força lenta. É a força rápida, rigidez, armazenamento e libertação de energia, travagens, impulsões, mudanças de direção, contactos no solo curtos e ações repetidas sob fadiga.

Isto significa que um programa preventivo ou preparatório deve incluir força do tríceps sural, trabalho progressivo em diferentes amplitudes, exercícios isométricos, excêntricos, concêntricos pesados, pliometria progressiva, corrida, aceleração, desaceleração e mudanças de direção adaptadas ao nível da pessoa.

Mas a palavra-chave é progressão.

O problema não é introduzir saltos. O problema é introduzir saltos tarde demais, rápido demais ou sem base suficiente.

O problema não é jogar padel. O problema é jogar três vezes por semana sem força de gêmeos, sem exposição progressiva a travagens, sem capacidade elástica e sem gestão de fadiga.

O problema não é voltar ao futebol aos 42 anos. O problema é voltar como se o corpo ainda tivesse a mesma preparação dos 22.

A prevenção começa antes da dor

Um erro comum é esperar que a dor apareça para começar a cuidar do tendão. Mas a rotura do Aquiles nem sempre é precedida de sintomas claros. Algumas pessoas têm dor ou rigidez prévia. Outras não relatam sinais significativos antes da lesão.

Por isso, uma abordagem inteligente não deve depender apenas da presença de dor.

Para profissionais do treino e reabilitação, algumas perguntas tornam-se essenciais:

A pessoa tem força suficiente no tríceps sural?

Tolera trabalho unilateral?

Consegue realizar elevações do calcanhar com controlo e amplitude?

Está exposta a corrida, saltos e mudanças de direção de forma progressiva?

O volume desportivo semanal é compatível com o nível de preparação?

Existem picos bruscos de carga?

Há histórico de dor no Aquiles ou tendinopatia?

A pessoa está a regressar ao desporto depois de uma pausa longa?

Estas perguntas podem parecer simples, mas muitas vezes são exatamente elas que faltam.

A importância da força do tríceps sural

Se há uma estrutura muscular que deve ser respeitada neste tema, é o tríceps sural. Gastrocnémios e sóleo não devem ser vistos apenas como “gémeos” para estética ou como acessórios no final do treino.

São produtores de força, reguladores de rigidez, contribuidores fundamentais para a propulsão e parceiros diretos do tendão de Aquiles.

Na prática, isto significa que o trabalho de força deve ser mais completo do que apenas algumas elevações de calcanhar rápidas no final da sessão.

Devemos considerar:

  • trabalho com joelho estendido, para maior ênfase nos gastrocnémios;

  • trabalho com joelho fletido, para maior ênfase no sóleo;

  • exercícios bilaterais e unilaterais;

  • contrações isométricas para tolerância e controlo;

  • contrações lentas e pesadas para capacidade de produção de força;

  • exposição progressiva a ações rápidas e elásticas;

  • e integração com corrida, saltos e mudanças de direção.

A força isolada não resolve tudo. Mas sem força suficiente, a exposição ao desporto fica muito mais frágil.

A pliometria também tem de ser preparada

Falar de tendão de Aquiles sem falar de pliometria é deixar metade da história de fora.

O Aquiles é uma estrutura central no ciclo alongamento-encurtamento. Por isso, se a pessoa pratica uma modalidade com saltos, arranques e travagens, em algum momento precisa de ser exposta a ações reativas.

Mas essa exposição tem de ser construída.

Podemos começar com tarefas de baixa intensidade: pogo jumps bilaterais, saltos de baixa amplitude, contactos controlados, skipping leve e progressões simples.

Depois, avançar para tarefas unilaterais, saltos horizontais, contactos mais rápidos, mudanças de direção, desacelerações e ações mais próximas do desporto.

A progressão deve respeitar três elementos: intensidade, volume e complexidade.

Muitas lesões acontecem porque estes três sobem ao mesmo tempo. Mais jogos, mais intensidade, mais velocidade, mais fadiga, mais imprevisibilidade. O tendão não falha por acaso. Falha quando a exigência acumulada ultrapassa a tolerância disponível.

O papel dos treinadores e fisioterapeutas

Este estudo deixa uma responsabilidade clara para quem trabalha com pessoas ativas.

Não basta reabilitar depois da lesão. É preciso preparar antes.

E preparar antes não significa transformar todos os praticantes recreativos em atletas profissionais. Significa dar-lhes uma base mínima para tolerarem aquilo que escolheram praticar.

Um adulto que joga futebol uma vez por semana precisa de força, mobilidade, capacidade de desacelerar e alguma exposição a sprint.

Uma pessoa que joga padel precisa de tolerar deslocamentos curtos, travagens, impulsões e rotações.

Um corredor precisa de progressão de volume, força do complexo pé-tornozelo e tolerância a contactos repetidos.

Um atleta em retorno à performance precisa de critérios, não apenas de tempo.

O tempo ajuda a cicatrizar. Mas não garante capacidade.

O que deves levar deste texto

A incidência da rotura do tendão de Aquiles está a aumentar de forma consistente ao longo das últimas décadas.

O estudo encontrou uma incidência global de 15,7 casos por 100.000 pessoas/ano, com valores recentes próximos dos 31,1 por 100.000 pessoas/ano na década de 2020.

Os homens apresentam um risco mais de três vezes superior ao das mulheres.

O pico de incidência ocorre sobretudo em homens entre os 30 e os 49 anos e em mulheres entre os 40 e os 49 anos.

Cerca de 68% das roturas estão associadas à prática desportiva.

As modalidades com aceleração, desaceleração, saltos e mudanças rápidas de direção parecem ter especial relevância.

A cirurgia atingiu um pico por volta de 2003 e tem diminuído desde então, refletindo uma maior aceitação da gestão conservadora em determinados contextos.

A rotura do Aquiles deve ser vista como uma lesão de carga, exposição, capacidade e contexto, não apenas como uma falha súbita do tendão.

Como aplicar amanhã

  • Avalia a força do tríceps sural, especialmente em adultos que praticam desportos explosivos.

  • Não assumes que alguém está preparado para jogar só porque “não tem dor”.

  • Introduz trabalho progressivo de gémeos e sóleo, com joelho estendido e joelho fletido.

  • Inclui isométricos, força pesada, trabalho excêntrico-concêntrico e progressões elásticas.

  • Prepara a pessoa para desacelerar, mudar de direção, saltar e reagir.

  • Controla picos bruscos de exposição, sobretudo após pausas, férias, lesões ou períodos de sedentarismo.

  • Em atletas recreativos de meia-idade, trata o regresso ao desporto com a mesma seriedade que tratarias um retorno à performance.

  • Não olhes apenas para o tendão. Olha para o sistema: força, capacidade elástica, fadiga, historial, modalidade, frequência semanal e recuperação.

  • No fim, a grande lição deste estudo é simples: o tendão de Aquiles não rompe apenas porque é fraco. Muitas vezes, rompe porque foi colocado perante uma exigência para a qual já não estava preparado.

  • E é precisamente aí que o treino, a fisioterapia e a preparação física podem fazer a diferença.


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